5.2.16

Leitura de imagem

O que mais me faz olhar para o passado, sem dúvida, são os objetos. Quando digo olhar é viajar para um tempo em que eu não existia. 
Uma cadeira pode me dar uma viagem sem fim, que vai de quem sentou na cadeira até o lugar onde ela foi parar. Ou um prédio antigo, quantas pessoas passaram por li, quantos figurinos que hoje vira fantasia, que foi moda um dia ou quem morou, quem morou sozinho, quantas famílias e por aí vai…
Assim obviamente embarco na viajem através das fotografias, que em particular me tocam com mais realismo. Como tenho um trabalho com conservação de fotografia, sempre garimpo Brechos e Antiquários atrás de raridades, ou nem tanto. 
Bem, estava ainda na faculdade e procurava fotos para poder usar em exercícios de higienização, claro que não poderia usar as fotos de família para isso. Em uma dessas garimpadas nos Brechos em baixo do Minhocão no bairro de Santa Cecília em São Paulo, encontrei minha primeira foto realmente antiga, que datava de 1905. Pronta para aula, fui para faculdade com minha foto.
Quando saquei a foto da pasta, meu digníssimo professor olha para foto e diz:
- Nossa, eu conheço essa mulher!
Eu passada e sem entender direito:
- Sério?! É da sua familia?
- Não, do mesmo Brecho, do boliviano. 

Acervo Particular Cássia Xavier

Chocada fiquei… Óbvio que o boliviano (infelizmente não lembro o nome) havia desmembrado o álbum ou recebeu a coleção da mesma família e vendeu separado. Até aí tudo bem, ele não tinha relação nenhuma com aquela família. O que me indignou é a história dessa foto, ou dessa mulher que após tantos anos se tornou novamente conhecida. 
Tudo é suposição, pode ser até que ela morreu sozinha, não deixou herdeiros, mas e se não, e se foi a própria família que foi doar ou vender os móveis e não se importou com as fotografias e as deixou ali mesmo. Já pensou parte da sua história, de momentos tão importantes para você, serem simplesmente descartadas assim tão insignificantemente? Ou será que passou desapercebido, dentro de um móvel e a família não viu? 

E que loucura após 111 anos a foto com as duas mulheres ser usada em uma aula de conservação de fotografia! Será que em um futuro distante, alguém vai pegar minha foto e indagar tudo que ela representa ali, naquele minuto congelado? 
Então ao menos vou editar muito bem minhas fotos, assim se alguém encontrar vai ser uma bela foto de um momento esquecido, que retorna para esse futuro sem destino.